
O Prof. RICHARD H. SMITH
era chefe do Departamento de Aeronáutica do
Massachussets Institute of Technology
* Trechos da Conferência
do Prof. Richard H. Smith - BRASlL, FUTURA POTÊNCIA
AÉREA (Conferência realizada em 26 set 45, no Auditório
do Ministério da Educação - RJ, a convite do Instituto
Brasileiro de Aeronáutica).
"O convite que me foi
dirigido, para fazer a primeira conferência anual desta
nova sociedade profissional de aeronáutica, é uma alta
honra que muito me lisonjeou. Sinto, contudo, que a
minha responsabilidade é muito grande, porque o Brasil,
entrando neste momento numa fase de sua história da
aviação, está tão ávido de obter ensinamentos e
conselhos, como base da sua orientação nacional, e o que
eu disser hoje aqui poderá vir a ser aceito,
influenciando, deste modo, todo o futuro do país. Não
sendo esta a minha intenção, espero, sinceramente, que
não me mereçam maior valor do que o real, às sugestões
que aqui farei. Dar-me-ei por satisfeito se, porém, elas
tiverem a mesma ação dos catalizadores, estimulando o
Brasil a resolver seus próprios problemas e a escolher
sua própria política aérea, a ser seguida na
importantíssima era da aviação que se aproxima.
O
futuro período, de cerca de vinte anos, será de valor
estratégico excepcional para a aviação brasileira, e,
provavelmente, será lembrado, nos tempos que se
seguirem, como o período áureo da sua história da
aviação. Para outros países, como a França e os EUA, por
exemplo, essa será apenas a terceira fase de seu
desenvolvimento aéreo.
Em compensação, os países
que tiveram seu desenvolvimento aéreo na primeira e na
segunda fase levam as seguintes desvantagens em relação
aos que se desenvolverem na terceira fase:
a) os
laboratórios não são de construção muito recente, não
correspondendo, portanto, às necessidades da terceira
fase que ora se inicia;
b) grande parte do
equipamento mais dispendioso, principalmente os túneis
aerodinâmicos, tornar-se-á, provavelmente, obsoleto;
c) as indústrias aeronáuticas, por maior que sejam,
estão dispersas, por razões estratégicas, tornando muito
elevado o custo dessa produção pós-guerra; e
d)
suas linhas aéreas não poderão fugir ao aproveitamento,
no período de paz, do material obsoleto da guerra, em
virtude de motores, aviões de transporte e de bombardeio
serem muito abundantes e baratos.
Há, assim,
vantagens e bem importantes, para uma nova potência
aérea, como o Brasil, que se candidata ao maior
desenvolvimento aéreo somente no início da terceira
fase:
a) todos os laboratórios nacionais de
aeronáutica podem ser construídos e concentrados num
único grande centro de pesquisas e treinamento;
b) sua indústria aeronáutica pode ter a liberdade de
escolher o local mais apropriado para suas instalações;
c) suas linhas aéreas podem ser equipadas com tipos
nacionais de aviões modernos, logo que for possível
produzir seus próprios modelos, projetados de acordo com
suas necessidades; e
d) poderão ser evitadas,
igualmente, as pesadas perdas econômicas, os grandes
deslocamentos de operários e a distorção dispendiosa da
indústria aeronáutica.
Uma nova potência aérea
como o Brasil tem, todavia, a vulnerabilidade de ser
levada a comprar grandes quantidades de material de
guerra, oferecido por vendedores estrangeiros a preços
verdadeiramente atrativos, com o argumento de que sua
obsolescência seria inteiramente compensada por seu
baixo custo. Fora disso, porém, creio que este país
seguirá melhor política não adquirindo material
aeronáutico de guerra, senão para as suas necessidades
imediatas, mesmo que este lhe seja oferecido de graça.
A política do Brasil em aceitar tal espécie de
material, com o fundamento de ser barato ou de graça, é
enganosa, por diversas razões:
a) ficaria de
posse de grande quantidade de material antiquado, caro
de ser mantido e dispendioso de ser operado;
b)
estaria sempre na dependência de um país estrangeiro; e
c) tal situação acarretaria o retardo do
desenvolvimento da indústria aeronáutica brasileira,
impedindo, talvez, mesmo a sua independência, não
podendo enfrentar a concorrência de países mais fortes.
Acredito, em resumo, que tal política importará em
nada mais do que trocar o futuro da aviação do Brasil,
como produtor independente de aviões e operador de
linhas aéreas internacionais, por um lote obsoleto de
aviões de guerra. Este seria, na minha opinião, um
péssimo negócio para o Brasil, razão porque espero que
este país possa evitá-lo.
Embora correndo o risco
de ser desmentido, por acontecimentos futuros,
permitam-me expor minha opinião sobre as modificações
muito importantes que prevejo para esta terceira fase e
sobre a posição do Brasil em relação às mesmas.
Três grandes potências industriais e comerciais, de
acordo com as condições de paz, terão destruídas suas
indústrias aeronáuticas. Suas linhas de navegação aérea
passarão ao domínio das nações vencedoras.
Embora
essas três nações estivessem entre os maiores países
industriais do mundo, precisavam importar petróleo,
sendo as que mais aperfeiçoaram a técnica da economia
desse combustível.
É provável que não seja
permitido às três nações que economizaram petróleo
fabricar ou mesmo ceder os direitos de fabricação dos
seus motores durante a terceira fase aérea.
Nessa
fase, a tendência geral da aeronáutica, em conseqüência
da vitória das nações ricas em petróleo, será a de
obter, de preferência, melhores performances, usando
motores mais possantes, mesmo com menor economia de
combustível.
Outra conseqüência interessante do
desaparecimento da Alemanha, da Itália e do Japão como
potências industriais de aeronáutica, que talvez lhes
tenha passado despercebida é que a indústria aeronáutica
mundial perdeu três dos países mais fortes, dentre os
que adotaram o sistema métrico, e ganhou, em seu lugar,
três dos países mais fracos que usam o sistema inglês: a
China, a Austrália e o Canadá. Causou-me surpresa
verificar que as indústrias brasileiras estão
familiarizadas com ambos os sistemas, e que a adoção, no
futuro, de quaisquer dos dois não lhes causará maiores
embaraços.
A superioridade reconhecida dessa
nação (Alemanha), em pesquisas e no aperfeiçoamento da
engenharia aeronáutica, perdurou até 1933, e, com a
ascensão de Hitler, foi desaparecendo, gradativamente,
nos dez anos seguintes, passando primeiro para os EUA e
finalmente para a Inglaterra.
Os melhores livros
e revistas e os mais adiantados relatórios sobre
pesquisas e desenvolvimento da aeronáutica serão
editados, nos próximos vinte anos, em inglês e em russo.
Em determinadas especialidades, como mecânica
supersônica dos fluidos, metalurgia e fundição de
magnésio, poderá manter-se em primeiro lugar ainda por
algum tempo. Se tal liderança puder ser conservada, os
melhores trabalhos nesse campo continuarão a ser
publicados em alemão.
Penaliza-se imaginar que os
estudantes brasileiros de aeronáutica precisarão
conhecer os idiomas russo e inglês, se quiserem
acompanhar, nos próximos vinte anos, o desenvolvimento
aéreo mundial.
Desejo acentuar aqui que Natal-RN,
situada nesse ponto do extremo oriente da costa
brasileira, é o trunfo que o Brasil tem nas mãos para
entrar na competição pelo comércio aéreo do futuro.
Como nenhum país poderá possuir indústria e comércio
equivalentes aos de outras mais adiantadas, enquanto for
subordinado à engenharia e às outras profissões
correlatas dessas nações, o Brasil só poderá tornar-se
independente das outras nações competidoras no comércio
aéreo pela criação de escolas superiores nos campos da
engenharia aeronáutica, aerologia, comércio aéreo e
fabricação de aviões, e pela instalação, para essas
especialidades, de laboratórios próprios de alto padrão
científico.
A partir daí, sob a orientação dessas
instituições, o Brasil deverá desenvolver e fabricar
tipos de aviões genuinamente brasileiros, e organizar
linhas de navegação e aeroportos terminais brasileiros,
perfeitamente aparelhados.
Uma rede de linhas de
transporte aéreo bem distribuída, abrangendo todo o
território brasileiro, revolucionaria por completo o
sistema econômico, agrícola e industrial do país. Tal
sistema de transporte tornaria acessível o interior do
país, mesmo as longínquas regiões amazônicas da
borracha.
Penso que as linhas aéreas serão para o
Brasil o que são as estradas de rodagem e de ferro para
a América e para a Europa.
Muitos dos novos
núcleos de população agrupar-se-ão na estrutura
econômica e política do Brasil, em lugar bem diferente
do que ocupariam, se já existisse, no Brasil, uma
organização básica de transporte, com estradas de ferro
e de rodagem densas e poderosas.
A quarta
alteração da era aeronáutica, que ora se aproxima e que
prevejo, é uma conseqüência lógica da terceira. A menos
que o Brasil se descuide, o que creio não ocorrerá;
espero vê-lo erguer-se ao poder como uma nação de
comércio aéreo, e tornar-se o país mais importante em
transporte barato de carga e misto de carga e
passageiro, no hemisfério ocidental.
No fato de
serem as aviações comerciais americana e brasileira
fundamentalmente complementares, não competidoras, para
os EUA não é de interesse vital desenvolver, em grande
escala, aviões de transporte ou linhas aéreas de carga
dentro de seu próprio país.
Este país necessita,
essencialmente, de aviões muito eficientes, de baixo
custo, para o transporte barato de carga e passageiros,
e, como as viagens não precisarão ser rápidas e nem
freqüentes, tais aviões não seriam provavelmente do tipo
DC-3.
É erro fundamental para o Brasil, no meu
entender, usar indiscriminadamente qualquer tipo de
avião estrangeiro nas linhas aéreas brasileiras, apenas
porque elas deram bons resultados nos EUA ou na Europa.
Parece-me, pois, que a orientação da indústria
aeronáutica e da aviação comercial do Brasil será a da
especialização em aviões de carga e de passageiros, para
linhas aéreas muito econômicas, tanto para seu serviço
de transporte nacional como para o internacional.
O transporte aéreo de carga será, para o Brasil, um
negócio bom e lucrativo, que não pesará muito ao Tesouro
Nacional.
O Brasil precisa criar suas escolas e
seus laboratórios profissionais de aeronáutica, para
poder sobrepujar os seus concorrentes na construção dos
mais eficientes motores e aviões de carga.
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